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Entrevistas

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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

Sandra Oliveira

A médica Sandra Maria Pereira de Oliveira é natural de Sousa – PB. Formada em Medicina pela UFPB e especialista em Oncologia Clinica pelo Instituto Nacional do Rio de Janeiro. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e da American Cancer Society of Oncology Clinical. Atualmente ela é responsável pelo serviço de quimioterapia de Hospital Universário Alcides Carneiro, médica oncologista do Hopital da FAP, Diretora Técnica da ONCOL e Professora da UFCG.

 

 

 

 

 

CN – Está havendo aumento nos casos de câncer de mama ou os diagnósticos estão ocorrendo mais precocemente?

 

Sandra Oliveira – Acho que as duas coisas estão ocorrendo. Alguns dos mais fortes fatores de risco para o câncer de mama é o gênero feminino (câncer de mama é cem vezes mais freqüente na mulher que no homem) e a idade. A curva de crescimento da doença é mais acentuada até a idade dos 45 a 50 anos. A partir daí, a taxa de crescimento é menor (talvez refletindo o impacto das mudanças hormonais – menopausa – no organismo feminino) mais ainda existe. Se considerarmos que há uma tendência para o aumento da expectativa de vida da população mundial, certamente deveremos esperar também um aumento na incidência desta patologia. Um detalhe importante que se pode acrescentar em relação a mulheres na pós-menopausa, é que o aumento de peso tem demonstrado elevar o risco de câncer de mama nesta população, conforme demonstram vários estudos. Em relação ao diagnóstico mais precoce, o nível de informação da população em geral tem aumentado. Freqüentemente campanhas alertam para a necessidade do auto-exame e mamografias periódicas. Esta democratização da informação torna as mulheres mais alertas e curiosas com o próprio corpo. Assim, ao menor sinal de alguma coisa errada, elas acabam procurando ajuda especializada.

 

 

CN – Quais são as novidades no tratamento da doença hoje em dia?

 

Sandra Oliveira – Hoje se entende que o câncer de uma forma geral não é uma doença única e sim diferente em cada pessoa. Isso explica o fato, por exemplo, de duas pessoas com um tipo de câncer em estágio de desenvolvimento semelhante às vezes terem uma evolução tão diferente. Enquanto uma responde bem ao tratamento e consegue livrar-se da doença, outra acaba por sucumbir a ela. O desenvolvimento da biologia molecular, e, portanto, da capacidade de estudar as células cada vez mais intimamente, tem revelado um grande número de alterações genéticas na célula cancerígena que modifica o seu comportamento biológico. Baseado nisto, o ponto chave no manejo do câncer de mama hoje consiste na individualização do tratamento. Cada paciente tem um protocolo especial de conduta baseado nas características de sua doença. Este fato vai, sem dúvida, avançar cada vez mais à medida que novos conhecimentos forem acrescentados. Outro ponto importante é o desenvolvimento de medicamentos cada vez mais específicos (é o que se chama de terapia alvo-molecular). Isso significa que as novas drogas tendem a atingir com maior precisão apenas aquela alteração molecular que leva ao inicio ou perpetuação da doença, poupando as células normais do organismo e, desta forma, melhorando a eficiência e a tolerância ao tratamento. Caminha-se, portanto para tratamentos menos “sofríveis” e mais eficazes.

 

 

CN - Que mudanças no estilo de vida da mulher moderna justificam o aumento no número de casos?

 

Sandra Oliveira – O aumento da expectativa de vida, a obesidade, sedentarismo, piora na qualidade da dieta (que privilegia os “fast foods” e a dieta gordurosa em detrimento da alimentação saudável rica em frutas e verduras), também a idade com que a mulher tem seu primeiro filho. Mulheres que tem seu primeiro filho mais jovens tendem a ter menor incidência da doença. Pessoas que amamentam por mais tempo também estão expostas a um menor risco. Também o uso prolongado de terapia de reposição hormonal confere um risco aumentado de câncer de mama.

 

 

CN - O câncer de mama é a neoplasia mais diagnosticada no Nordeste entre as mulheres. Porque elas apresentam maior risco de ter a doença?

 

Sandra Oliveira – Na verdade o câncer de mama é a neoplasia mais freqüentemente diagnosticada entre as mulheres, excetuando-se os casos de câncer de pele não melanoma. Isso é um fato presente em todo o mundo e não uma particularidade das mulheres nordestinas.

 

 

CN – Muitas pessoas acreditam que apenas fazendo o auto-exame todo mês significa que elas não precisam consultar um médico mais de uma vez por ano. Isso está certo? Qual a importância do exame médico?

 

Sandra Oliveira - A consulta regular, periódica, é importante, principalmente nas mulheres após os quarenta anos. Não só para a realização de um exame por um profissional treinado para “enxergar” mais além qualquer alteração, bem como para a solicitação do exame de mamografia, que é capaz de detectar a doença com maior precocidade em relação ao auto-exame da mama. Diagnóstico precoce: essa é a palavra chave quando se quer falar em sucesso terapêutico. Quero destacar que ao realizar o auto-exame da mama a mulher também deve palpar as axilas a procura de nódulos ou massas que também podem significar a presença de câncer, mesmo que na mama ela não detecte nada no exame físico.

 

 

CN – Nos EUA existe uma nova diretriz na saúde que determina a não realização de exames periódicos entre mulheres de 40 a 50 anos. Isso gerou controvérsias entre elas. Qual a sua opinião a respeito disso?

 

Sandra Oliveira – O que aconteceu é que um estudo mostrou como resultado final, que a realização do exame de mamografia não tem impacto final na diminuição na mortalidade por câncer de mama. Isto quer dizer que o diagnóstico mais precoce imposto pela realização do exame de mamografia talvez não seja tão precoce assim, seria preciso ir além, ou seja, a realização de um exame que pudesse achar a doença em um estágio ainda mais precoce (este exame mais apurado ainda não existe). A realização de um estudo clínico, que traga impacto na mudança como se diagnostica ou se trata determinada doença é algo muito complexo. É preciso se ater a muitos detalhes para que o resultado final do estudo não seja falso. Eu não li este estudo. Portando não posso inferir nenhuma opinião sobre sua qualidade final, a ponto de dizer se é ou não confiável. Nem tudo o que se divulga é digno de total confiança. É preciso sempre ter olho crítico em relação às informações que se recebe. Se há este estudo que diminui a importância da mamografia, há outros que, ao contrário, afirmam que a mamografia é um exame importante no diagnóstico precoce do câncer de mama. Na pior das hipóteses, teríamos aí um empate. É preciso aguardar novas pesquisas até que haja uma conclusão final. A medicina é uma ciência de verdades transitórias. O que é certo hoje pode ser errado amanhã. O resultado deste estudo ainda não foi o suficiente para mudar, nos EUA, as diretrizes sobre a realização dos exames de mamografia. Portanto, até agora, tudo está como antes.

 

 

CN - É aconselhável a mamografia acima dos 60 anos de idade?

 

Sandra Oliveira – Sim. A mamografia deve ser feita anualmente já a partir dos 40 anos de idade. Em mulheres idosas, o câncer de mama tem uma evolução mais lenta e em geral tem um melhor prognóstico, do que o câncer que acomete mulheres na pré-menopausa.70-80% dos tumores no pós-menopausa, são receptores hormonais positivos, sendo portanto, mais responsivos as formas de tratamento disponíveis no momento. No nosso meio, possivelmente por uma questão de pudor, o câncer de mama em mulheres idosas é diagnosticado numa fase muito avançada, o que poderia ser evitado se fosse feito uma prevenção através da mamografia, o que tornaria possível o diagnóstico numa fase mais inicial da doença, onde o tratamento teria um melhor resultado.

 

 

CN - A retirada total da mama ainda é a opção mais segura para eliminar a doença?

 

Sandra Oliveira - O tratamento cirúrgico do câncer de mama evoluiu bastante a partir da década de sessenta, quando foram publicados os resultados dos trabalhos do Dr. BERNARD FISHER nos Estados Unidos, e do Dr. BONNADONA na Europa, os quais demonstraram que o câncer de mama não é uma doença loco-regional e sim uma doença sistêmica e que a radicalidade do procedimento cirúrgico não modificava sobrevida , mas sim, a extensão da doença no momento do diagnóstico. Desde então, se vem usando cirurgias mais conservadoras. A extensão da cirurgia depende do tamanho do tumor em tumores menores é possível preservar a mama, ou seja, retirar apenas um quadrante e se obter resultados tão bons quanto com a mastectomia radical (retirada total da mama). Mais recentemente, tivemos mais um avanço, que foi a descoberta do linfonodo sentinela que evita o esvaziamento axilar (retirada dos gânglios da axila) que atualmente só é feito, se o linfonodo sentinela estiver comprometido pela doença.

 

 

CN - Quando é descoberto um linfonodo na axila, que método é aplicado? Existe alguma relação desse caso com o câncer de mama?

 

Sandra Oliveira - O câncer de mama se dissemina precocemente para os linfonodos axilares, em geral para a axila homolateral a mama afetada. Quando se descobre um linfonodo (gânglio) na axila, a primeira preocupação do médico é avaliar se é um processo inflamatório ou uma doença mais seria como um câncer de mama. Este diagnóstico diferencial, muitas vezes é possível se fazer através do exame físico, ou seja, pela palpação da axila ou através de exames como ultra-sonografia, mamografia e alguns casos através da biópsia.

 

 

CN - Os especialistas dizem que a depressão, a má alimentação e a obesidade são alguns dos fatores que podem contribuir para o surgimento do câncer, inclusive o de mama. Qual a sua opinião a respeito disso?

 

Sandra Oliveira - Em relação ao câncer de mama a hipertensão, a obesidade, a nuliparidade, a primeira gestação tardia e a historia familiar de câncer de mama, estão entre as principais causas da doença. Em geral em famílias onde existe um caso de câncer de mama, o risco de aparecer mais um caso entre os parentes de primeiro e segundo grau pode ser de três a cinco vezes maior do que na população geral. A depressão provoca uma diminuição dos nossos mecanismos de defesa.O que pode levar ao aparecimento do câncer. Os outros fatores etiológicos importantes são o stress, o tabagismo, o etilismo e os fatores etiológicos importantes são o stress, o tabagismo, o etilismo e os fatores ambientais.

 



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