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Eneida Agra Maracajá é professora mestre em Educação pela UFPB e uma das mais respeitadas promotoras culturais do Nordeste, quiçá! do Brasil. Foi responsável por inúmeras ações envolvendo a cultura na cidade, a exemplo do Festival de Inverno de Campina Grande. Batalhadora incansável pela disseminação da cultura, ela concedeu entrevista ao Portal Celino Neto onde relata sua brilhante trajetória na história artístico-cultural de Campina.
CN – Começamos fazendo uma retrospectiva dos seus projetos desenvolvidos ao longo desses anos. Dentre todos, para qual a senhora tem um olhar diferente?
Eneida Agra Maracajá - Ao longo desses anos, a palavra de ordem é: resistir por compromisso, vivenciando contradições, omissões, indiferenças, mediocridades, por acreditar que a cultura é o único bastão condutor da comunidade. O Festival de Inverno de Campina Grande, resiste! Resiste e aposta na cidade. A cidade é que existe, a cidade sabe, a cidade vive; o resto é abstração. O Festival tornou-se Instituição e tem um plano de ação de caráter permanente, reconhecido pelo Ministério da Cultura. Dentre os seus projetos: “Girassol”; “Carnavalesca do Bloco da Saudade”; “Folias de Natal” e “Cultura no Presídio”, este último recebe o meu olhar diferenciado, por tratar-se de um projeto de humanização através das artes. Aliás, “Cultura no Presídio” (que estava em recesso por falta de amparo financeiro), acaba de ser premiado pelo Ministério da Cultura, com um prêmio simbólico no valor de R$11.000,00 (onze mil reais); para recomeçar, merece aleluia!
CN – Durante muito tempo, a senhora esteve à frente do projeto ‘Cultura no Presídio’, realizado em Campina Grande. Qual o aspecto mais forte desta experiência de trabalhar diretamente com os presidiários?
Eneida Agra Maracajá - O aspecto mais forte é a humanização. É a descoberta de um potencial criativo no ser humano, cerceado de sua liberdade, envolto por muralhas e fios elétricos, mas livre para pensar, criar, amar e produzir cultura. O Projeto “Cultura no Presídio” é desenvolvido dentro do rigor científico, embasado na visão sócio-histórica da educação. Todo o trabalho é respaldado no existencial do apenado, como um ser uno, que é biológico e psicológico, material e espiritual, individual e social.
CN - Através de sua vasta experiência como ativista cultural, como à senhora analisa as principais mudanças no cenário artístico de Campina Grande ao longo dos anos?
Eneida Agra Maracajá - O tempo não pára. A sociedade muda. Campina viveu uma realidade cultural até a década de 62. Em 1963, ganha o seu segundo teatro, pois o Apolo, o primeiro teatro da cidade, havia sido demolido na década de 40, pelo prefeito Werniaud Wanderley. Com a inauguração do Teatro Severino Cabral surgiram muitos grupos teatrais; Os Corais falados da FACMA e toda uma efervescência artístico-cultural – marco também de uma década histórica neste país. Foram na década de 60, que surgiram a Bossa Nova, o Cinema Novo, os Centros Populares de Cultura da UNE e todos os movimentos sociais, voltados às reformas de base. Foi uma década gloriosa, de muitos sonhos por um Brasil mais justo e por sua cultura de raízes brasileiras. Na década de 60, eu e Salete, (minha irmã e grande pedagoga), fundamos o Instituto Moderno Nossa Senhora da Salete, onde programamos o 1º Laboratório de Arte Infantil de Campina Grande. Enquanto os grupos teatrais, FACMA, o Teatro Universitário (criado pelo 1º Reitor da UEPB. Edvaldo do Ó), atuavam com os adultos, nos estávamos junto às crianças, com montagens de espetáculos teatrais, corais cantados, jograis, danças, literatura e artes plásticas. Trabalhamos com uma plêiade de profissionais digna de todos os aplausos. Wilson Maux, Walter Pessoa, Antonio Guimarães, Dada Gadelha, Chico Pereira, Fátima Marques, Renato Azevedo, foram alguns do que nos ajudaram, a mostrar a todo o Nordeste, o que é uma filosofia de educação, permeada pela cultura. A nossa Escola foi um importante pólo de Arte e Cultura, por onde passou nomes que hoje; engrandecem a nossa Paraíba e outros que são destaques, nacional, a exemplo de Ubirajara Rocha Meira, atual diretor de projetos especiais da Eletrobrás.
CN – A senhora acredita que a efervescência cultural de outrora poderá acontecer novamente na mesma intensidade?
Eneida Agra Maracajá - Eu acredito na cultura. Acredito no homem e no seu poder de criação. Campina é um celeiro de talentos. Já possuímos excepcionais músicos, compositores, cantores e cantoras, poetas, dançarinos, dramaturgos e bons atores e atrizes. Quase todos os nossos grupos populares são internacionais e no teatro, já fomos detentores de vários prêmios nacionais. Faltam-nos, apenas, unir esse potencial e elaborar um plano de ação, que seja comprometido com todas as classes sociais, mas priorizando o povo, a quem o produto cultural precisa chegar gratuitamente. Para isso, necessitamos de patrocínios públicos e privados.
CN – O Bloco da Saudade é um verdadeiro marco na história carnavalesca da cidade. De que forma a produção do evento busca atrair os jovens para dar continuidade ao projeto?
Eneida Agra Maracajá - O Bloco da Saudade, hoje parte do Projeto Carnavalesca do Festival de Inverno de Campina Grande, está completando 20 anos. Todo o trabalho desenvolvido nessas duas décadas foi voltado para o estudo do Carnaval nas artes e ciências e com vistas à formação cultural das crianças, jovens e adolescentes. O nosso saldo é promissor, pois já entramos nas Escolas, Colégios e Universidades. Uma turma de História da UFCG elaborou um Cordel sobre, o Bloco da Saudade, após um minucioso estudo. A professora Carla da UEPB defendeu dissertação sobre o Bloco, no Mestrado de Sociologia da UFCG. O Bloco Infantil da Saudade, já com 10 anos, oferece oficinas pedagógicas, com aulas sobre danças, música, teatralidade, artes plásticas e literatura do carnaval. Uma das maiores conquistas do Bloco da Saudade foi a instalação da Sala do Carnaval, no Museu Histórico de Campina Grande, na gestão do memorialista Walter Tavares. Com o Abril com Alegria, 1ª edição 2009, o Bloco da Saudade trouxe outros blocos às ruas, todos jovens, como os “Melindrosos de Neco Bello”; “Imprensa que é Gostoso” e os “Cafuçus da Floresta”. Saudade não tem idade Carnaval é uma festa democrática. Não tem status social, cor ou idade. Carnaval não é somente folia. É uma manifestação artística e cultural. Sou carnavalesca e campinense, nascida na Rua Maciel Pinheiro - rua dos antigos e belos carnavais. Sou uma campinense, trezeana.
CN - Apesar de uma série de dificuldades enfrentadas com o passar dos anos, o Festival de Inverno de Campina Grande ainda consegue alcançar resultados significativos a cada edição. O que falta para que o evento tome proporções maiores e atraia mais turistas durante seu período de realização?
Eneida Agra Maracajá - O que falta ao Festival de Inverno de Campina Grande é mídia, patrocínios, apoios oficiais.
CN - Muita gente reclama do fato de Campina Grande não receber grandes atrações nacionais - se comparada a João Pessoa - durante o calendário de eventos culturais da cidade. Por outro lado, novos artistas de vários lugares do país ganham espaço para apresentar seus trabalhos por aqui. Qual seria a melhor maneira de balancear estes dois lados?
Eneida Agra Maracajá - Falta uma política cultural na Paraíba. Até hoje, a Paraíba não conseguiu mapear a sua cultura. O que define as diretrizes culturais de um Estado ou Município é a política cultural. O Festival de Inverno tem feito o que pode, dentro de suas limitações. Tem trazido grandes nomes e Cias nacionais e internacionais. Mais faria se tivesse outras condições.
CN - No que diz respeito à exportação de talentos, como a senhora analisa as oportunidades que os artistas campinenses, das mais diversas áreas, têm lá fora?
Eneida Agra Maracajá - Os campinenses que alcançaram sucesso nacional foram à duras penas. Todos sofreram para chegar ao topo. Recentemente, Lucy Pereira, que brilhou na novela “Caminho das índias”, já vinha batalhando há anos, em São Paulo. É uma de nossas grandes atrizes. Dignifica a Paraíba com o seu talento e humildade.
CN - Considerando toda a sua dedicação e esmero em seus projetos e o importante grito pela cultura de nossa cidade, o que Eneida Maracajá gostaria de receber em troca por esse brilhante trabalho?
Eneida Agra Maracajá - O que fiz e faço é por paixão, Campina é a minha pátria amada. E a minha opção existencial. Basto-me pelo amor à cultura, que é a minha bandeira de luta e a minha práxis pedagógica. Não há troca para o amor, que é uma dádiva, mas me contentaria pelo reconhecimento.
CN – O Portal soube que a senhora está trabalhando no Projeto Abril com Alegria, que é uma tentativa de redescobrir o carnaval de Campina Grande. Nos conte um pouco sobre essa iniciativa.
Eneida Agra Maracajá - O Abril com Alegria, edição 2009, foi sucesso total, não somente pelo surgimento de novos blocos, mas pela participação popular e a presença de oito maracatus, inclusive do vizinho Estado de Pernambuco. Estamos batalhando junto aos vários segmentos empresariais, artísticos, acadêmicos, além de órgãos públicos, no sentido de que nos possam ajudar a botar a cultura popular nas ruas, nos dias 17 e 18 de abril. Posteriormente, informaremos os detalhes. No momento, a receptividade é boa e já contamos com o irrestrito apoio da Associação Comercial de Campina Grande, que na certa será o carro-chefe do evento. Vamos aguardar! É um evento que propõe uma redescoberta do Carnaval de Campina, com possibilidades de abrir as nossas portas para o turismo e forte investimento na economia da cidade.
Loja I: Rua Américo Braga,33 - Sala 101- São José Loja II: Av. Severino Bezerra Cabral, 1200 - Boulevard Shopping.
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